Um diálogo e muitas lições

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Você já deve ter falhado em algum relacionamento ao relembrar um fato passado com o pretexto de dar uma boa lição em alguém, não é mesmo? Confesso que já fiz isso e sei que, na prática, não muda positivamente ninguém, ao contrário, só complica a convivência.

Para quem é expert em “jogar na cara” para “tirar a limpo” os acontecimentos ruins, a técnica de guardar dentro de si palavras e situações é fundamental. Essas pessoas fazem do seu coração um esconderijo e, como a boca fala do que tem no coração, em algum momento elas despejarão ressentimentos em alguém.

Tem gente que é tão sensível para maus sentimentos que remói o agravo por dias, até adoecer o corpo. Se você é uma dessas pessoas, creio que as palavras abaixo irão ajudá-la, pelo menos torço por isso e ficarei feliz em receber seu retorno.

O Senhor Jesus tinha doze amigos bem chegados. Eles conviveram juntos por três anos ininterruptamente. Eles eram absolutamente diferentes entre si, tanto na personalidade como na origem, educação, estrutura etc. Mas para o Mestre, isso não era problema, a propósito, foi Ele mesmo Quem nos criou tão diferentes assim, então resolveu provar que era perfeitamente possível lidar com as diferenças.

Pedro era um destes homens e tinha um perfil fascinante, quero muito conhecê-lo no céu!
Ele era do tipo que se fosse feita uma pergunta e pairasse o silêncio no ar, pois ninguém sabia responder, rs, ele logo respondia. Tinha uma alma transparente, sem medo de se mostrar, estando certo ou errado lá estava sua participação. A palavra “medo” não existia em seu vocabulário. Ele também não sabia o que era ser terno e brando, pois seu único método de comunicação era falar “na lata”.

Destacava-se por ser o discípulo mais duro e também o mais corajoso, conforme a vida e a profissão de pescador lhe ensinaram a ser. Ele tinha pouca instrução, talvez hoje alguns o chamariam de “matuto” ou coisa parecida.

Mas, na última noite com o seu  Senhor, um fato mudaria para sempre seu coração e seu jeito.

O discípulo mais fiel e corajoso negou que conhecia seu Mestre, com juramentos e praguejos. Fez isso diante de mulheres e criados quando sua vida sequer corria risco.
Ele cometeu o maior pecado para um ser humano e, por isso, ficou tão abatido que chorou amargamente, desapontado consigo mesmo.

Após esse acontecimento, ele se enclausurou longe dos demais discípulos porque, na sua cabeça, não havia a menor hipótese de perdão. Mas o nosso Senhor Jesus sabia disso e, após ter ressuscitado, mandou chamar os discípulos e se dirigiu especialmente a Pedro (Mc 16,7). Olha que lindo!

Estavam todos juntos novamente ao redor do Mestre.

Imagine a vergonha de Pedro diante de todos e ainda a frustração de ter sido um covarde no momento mais crucial de sua vida. Os pensamentos e os sentimentos deviam ser os mais terríveis do mundo!
Após todos terem se alimentado, sem ninguém ter tocado no assunto, o Senhor Jesus se dirigiu a ele afetuosamente.

Ele não o coagiu e não o humilhou lembrando do emblemático episódio para aumentar sua dor e esmagá-lo ainda mais. Simplesmente, perguntou sobre seu amor por Ele.
Por que perguntar por três vezes sendo que Ele já sabia da resposta de Pedro?
Para mim, foi uma maneira de fazê-lo se perdoar e desenvolver novamente a segurança de que tudo ficaria bem.

Se por três vezes você me negou, três vezes agora você reafirma o seu amor, e isso é suficiente!

Aconteceu ali a cura interior e a transformação de Pedro, nunca mais ele seria o mesmo. Só depois de falhar que ele enxergou sua fraqueza e deixou de confiar em si, mas ainda bem que ele tinha Alguém Misericordioso do seu lado.

Creio que a atitude de negação por parte do discípulo querido deve ter entristecido o Senhor Jesus, porém Ele foi capaz de tratar dele e depois ainda confiar tanto ao ponto de torná-lo pastor de Seu precioso rebanho.

Um homem tão duro precisou descer no abismo para conhecer o que é compaixão, senão que tipo de líder ele seria? Mas ele aprendeu porque tudo aconteceu de forma espiritual.

Finalizo, então, com essa reflexão em forma de perguntas.

Por que esmagar quem está quebrado? Por que relembrar coisas que machucam o outro? 
Por que há em sua mente arquivos sombrios de falhas e ofensas alheias para de alguma forma retribuir o mal?

Que bom seria se nossos diálogos fossem assim com aqueles que nos machucam.

Para que o diálogo bondoso seja algo natural, é preciso ser forte e viver acima das emoções que tanto enfraquecem e deturpam o comportamento humano, até mesmo com a pseudo desculpa de “ajudar”.

Amor sentimento, cantado, falado, escrito e anunciado não tem nenhum valor. Amor que vale a pena é sacrificial e deve ser comprovado na prática diária.

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