O que algumas noites sem sono podem fazer com o organismo?

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Dores nas articulações, nas pálpebras, inchaço facial, enxaquecas, sintomas como os de uma bela ressaca. Fora os efeitos psicológicos: alucinações, dificuldade em formar frases, perda de foco. Chegando ao nível de colapsos involuntários. Parece LSD ou ópio? Não, é apenas o que acontece quando privamos o corpo de sono por alguns dias.

O jornalista estado-unidense do The Atlantic, Seth Maxon, realizou um experimento quando tinha 18 anos e estava viajando pela Europa: veria quanto tempo seu corpo aguentaria sem sono à base de cafezinhos expressos italianos. Ele relata no site do jornal que não sabe ao certo quantas noites aguentou devido ao aumento das alucinações, mas afirma que foram pelo menos quatro antes de ter de parar no hospital.

Segundo relato do pneumologista e especialista do sono, Dr. Steven Feinsilver, os seres humanos precisam de sete horas e meia de sono por noite para a manutenção da saúde. É claro que, como tudo que é humano, varia e tem suas exceções: certamente você conhece alguém que com cinco horas já está pronto para um dia atarefado (e se você é uma dessas pessoas, parabéns!), enquanto outras não funcionam com menos de nove horas de descanso. Se esta necessidade biológica pode se curvar ao hábito, o especialista não sabe afirmar, de novo por se tratar das variáveis humanas.
Para entender melhor

O sono é dividido em 4 etapas:

Fase 1
Transição entre vigília (estado desperto) e sono, que ocorre ao escurecer, quando é liberado o hormônio da sonolência, a melatonina;

Fase 2
Sono de conexão, sono leve, aqui os músculos relaxam e a temperatura corporal cai;

Fase 3
O metabolismo desacelera e o coração e a respiração ficam lentos;

REM
Fase dos sonhos e do sono profundo, com picos de adrenalina devido às emoções dos sonhos.

Cada um desses momentos tem a sua função. As fases 1, 2 e 3 são responsáveis por economia de energia, restauração de tecidos e aumento da massa muscular. Já a fase REM é importante para a regulação hormonal, armazenamento das memórias do dia e aprendizado.

Pesquisadores notaram, contudo, que pessoas que tomam antidepressivos inibidores de monoaminoxidase têm como efeito colateral a supressão do sono REM, mas não apresentam problemas de memória – o mesmo ocorre com pessoas que sofreram danos cerebrais que afetam ou cortam esta fase do sono. Porém, outros especialistas alertam: não é que a memória dependa do sono REM, mas certas funções dela são melhoradas durante este período.

A maioria dos neurônios permanece ativa, como quando estamos despertos, porém aqueles responsáveis pela transmissão de serotonina (conhecida como hormônio da alegria – ela é responsável pelo estado de vigília), norepinefrina e histamina ficam inativos. Uma das teorias para a função do sono REM é o descanso dessas células, que ficam sobrecarregadas durante o dia, devido às inúmeras funções, além de reparar os danos causados pelos radicais livres causados durante os processos metabólicos. Esta fase do sono também é essencial no desenvolvimento cerebral dos bebês, uma vez que eles têm mais desse estágio por noite do que adultos.

Vale lembrar que quando uma pessoa é acordada no meio da noite, ela volta a dormir a partir da fase 1, tendo que passar por todos os outros estágios até chegar ao REM; porém se ela estiver relaxada e tranquila isso acontece num ciclo rápido. Outra curiosidade é que só lembramos dos sonhos se despertamos durante uma das fases REM, que ocorrem a cada 70 a 110 minutos de sono.

Ficar sem dormir pode prejudicar tanto física quanto mentalmente: psicoses, distúrbios crônicos de memória, hipertensão, diabetes e variações bruscas de humor.

Neurologistas da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, fizeram um estudo em 2003, no qual um grupo de voluntários passou três noites consecutivas sem sono e outro passou 14 noites dormindo de 4 a 6 horas apenas. O resultado foi uma grande perda das habilidades cognitivas em todos.

No mesmo ano, pesquisadores japoneses da Universidade de Akita (sim, o mesmo nome da raça de cães) comprovaram que ficar sem sono causa hipertensão e afeta o sistema imunológico.

Já na Universidade de Chicago, pesquisadores observaram ratos que foram privados de sono, por semanas a fio, simplesmente morrerem. Não se sabe ao certo qual foi a causa mortis de fato; pode ter sido a hipotermia devido à queda na temperatura corporal, doenças provenientes do sistema imunológico debilitado, ou danos cerebrais.

Casos de morte assim já ocorreram com humanos: em julho de 2012 um fã de futebol passou 11 dias acordado para assistir o Campeonato Europeu e não sobreviveu. Em agosto de 2013, um estagiário do Banco da América morreu após trabalhar 72 horas ininterruptas.
Epinefrina, dopamina e serotonina são químicos responsáveis por humor e comportamento. “Humor e sono usam os mesmos neurotransmissores”, por isso os sintomas de falta de sono são os mesmos da depressão, e é complexo separar o diagnóstico de um do outro.

Dá pra compensar o sono?
Um mito comum é o de que se pode “compensar” as horas de sono. Um exemplo: se a pessoa dorme cinco horas por dia de segunda a sexta, ao chegar o sábado a pessoa está “devendo” 10 ou 12 horas de sono. Mas para “balancear” isso seria necessário dormir as sete horas normais aos sábado, mais as horas em falta, e o organismo não aceita um período tão longo – tampouco é saudável. Para “compensar” de verdade, é necessário descansar na proporção de um para um ou de um para dois: ou seja, para cada noite mal dormida, o equivalente ou o dobro de noites bem dormidas. É preciso regular novamente o chamado Ritmo ou Ciclo Circadiano (do latim circa diem, cerca de um dia) variável pela luz solar, marés, enfim, o ritmo biológico dos seres vivos, também presente em nós, seres humanos.

Enquanto uma pessoa dorme, suas células passam por reparos que a alimentam com oxigênio e glicose. Quando a pessoa não passa por este processo, as reações dos órgãos a estímulos e instruções ficam debilitadas. Toda célula precisa de alimento e também de se livrar dos próprios dejetos; a adenosina é uma substância que se acumula e intoxica o sangue, diminuindo o ritmo da pessoa à proporção das horas que ela passa acordada.

Por este motivo, uma das técnicas de tortura usadas pelos exércitos e em tempos de ditadura foi, e ainda é, o de manter os prisioneiros acordados forçadamente. Não deixa marcas, cicatrizes, e é uma foma eficaz de arrancar a força de vontade deles.

O afegão Mohammed Jawad esteve preso em Guantánamo e por 14 dias foi transferido de cela a cada três horas. Essa atitude o privou do sono e fez com que ele perdesse 10% de seu peso corporal e urinasse com sangue. Ele abriu um processo contra o governo dos Estados Unidos.

Fonte: ECycle

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